2007-03-09

Empreender no Vale do Sousa

A manhã de hoje foi passada em Penafiel, na escola secundária local, com uma intervenção sobre empreendedorismo. Trajecto até Penafiel, todo ele feito pelas novas auto-estradas de uma das brisinhas do norte. Tudo sem SCUT, como deve ser.

Coube-me assumir a despesa de ser o primeiro orador a intervir perante um auditório composto dumas largas dezenas de estudantes da fase final do secundário e vários professores. Depois de mim seguiram-se quatro intervenções de empresários do Vale do Sousa que apresentaram as suas empresas e relataram experiências pessoais.

Começou o fundador duma clínica, a maior da zona. Uma clínica com uma história com mais de vinte anos e - a julgar nas palavras do médico-gestor que apresentou a sua experiência - com uma abordagem claramente incremental ao negócio. Seguiu-se o fundador de um distribuidor alimentar de congelados, empresa fundada em 1992 por um ex-vendedor do sector que encontrou a oportunidade da sua vida no momento em que o seu anterior empregador efectuou uma reestruturação que iria ter implicações negativas para a sua situação profissional. Hoje dá emprego a 18 pessoas, mais de 40 por cento da facturação depende de marca própria, está entre as 1000 maiores PMEs do país, e possui em curso um investimento de 50000 contos que se segue a um outro de 300000 contos terminado em 2002. À parte a referência aos "contos" - unidade monetária que curiosamente mereceu o cunho de outros empresários presentes - gostei de ouvir este empreendedor referir que ele não é "patrão" mas sim o "primeiro empregado", com todos os custos pessoais que isso implica. Depois, numa metáfora sobre a forma como gere o risco, aconselhou - e aconselhou muito bem - cada um de nós a "esticar o passo bem esticadinho, sem se desiquilibrar". A terceira empresa - de seu nome Cunha Soares, salvo erro - está no negócio de "montagem de redes de trasnporte de energia". Possui 70 colaboradores e percebeu-se que na próxima meia-dúzia de anos pretende aproveitar a oportunidade aberta pela construção de parques eólicos que começam agora a surgir por todo o país. A última empresa - Móveis Viriato - foi apresentada por uma gestora da terceira geração. Fiquei com a sensação que a esta empresa, a IKEA não fará muita mossa. Historicamente trata-se duma empresa tradicional de mobiliário mas na década de oitenta encetou um processo de focalização no segmento hoteleiro que a tornou não numa simples produtora de móveis para hoteis mas sim numa empresa que oferece uma solução integrada. Nestas soluções integradas cabem os móveis, iluminação, decoração e tudo o resto associado a um projecto de arquitectura de interiores para hoteis. Os principais clientes são cadeias hoteleiras fundamentalmente de origem francesa e espanhola, a que se junta o mercado doméstico.

Terminadas as comunicações, confirmou-se o que previa. As questões colocadas não foram muitas - pouco mais de meia-dúzia - mas eram todas elas questões difíceis. Numa delas, por exemplo, uma aluna queria saber se lhe recomendavamos a nossa actividade. Fiz-me de despercebido e interpretei a questão como sendo dirigida aos empresários presentes. Confesso que ainda agora não sei o que lhe responderia. De resto, fiquei satisfeito com a ida a Penafiel e dei a manhã por bem empregue.

No regresso foi um ver se te avias. Mesmo com portagens generosas, os setenta quilómetros de auto-estrada entre Penafiel e Braga (e no sentido inverso) não têm qualquer área de serviço, quanto mais uma simples casa de banho. Como parar o carro na via só para aliviar um chichi é indelicado e dá multa, fiquei com a clara sensação de que antes de viajar em muitas das novas auto-estradas que campeiam pelo país, talvez se justifique juntar ao colete reflector um qualquer recipiente plástico para apertos de última hora. É investimento certamente menos volumoso que o das portagens. Valeu-me o meu carro que é bastante rapidinho e me colocou na universidade pronto para todo o serviço. Depois foi seguir um dos conselhos da manhã - "esticar o passo bem esticadinho" - e tudo se resolveu a contento. Se é assim com portagem, como será nas SCUTs?!

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