28 janeiro 2015

Um lapsus linguae

Bastaria um único para serem demasiados os estudantes a escrever mal português. Mas quando vários deles praticam sistematicamente o mesmo erro, escrevendo que uma qualquer coisa tem haver com qualquer outra coisa, fica-se seriamente preocupado.



Se um conceito tem a ver com outro é, já por si, português primário, mas se o conceito tem haver com outro, então é melhor questionar se este vírus que se propagou tem haver com qualquer efeito dos deves e haveres que naturalmente preocupam os estudantes de gestão. Terá tal escrita haver com que influência? Um novo acordo ortográfico, porventura?! Ou um simples lapsus linguae, não com a língua mas com a caneta?

25 janeiro 2015

O riso é mesmo uma filosofia

Voltemos a Luís Manuel Cunha, em particular à crónica que aqui se reproduziu e que pode ter ferido algumas mentes mais sensíveis. Sobre o cronista escrevi também neste blogue, em março de 2008, há quase sete anos, o seguinte a propósito duma outra crónica do mesmo autor intitulada "O bordel irreformável", um título muito atual e que diz tudo.

[...] vale [...] a pena afirmar que este é presentemente o cronista do país que mais aprecio, daqueles que, quando o jornal chega, nos faz ir ler rapidamente. Meus amigos, deixem de ler os textos lavadinhos da imprensa portuguesa e leiam este nosso amigo de Barcelos. É uma escrita desassombrada, mas elegante, de quem não tem tento na caneta mas diz a verdade. [...] Dificilmente encontrará alguém a retratar tão bem o quotidiano português, seja em Barcelos ou em qualquer outra terreola.
Mantenho o que escrevi. Em 2010, a propósito da publicação duma excelente, imperdível mesmo, colectânea das suas crónicas («Crónicas de um Tempo Sem Tempo», Luís Manuel Cunha, 2009, ISBN: 978989201803), acrescentei:
Luís Manuel Cunha [...] é do melhor que se pode encontrar na imprensa portuguesa. Retrata Barcelos e ao faze-lo retrata todas as nossas cidades, vilas, terras. Retrata Portugal, a nossa sociedade, aquilo que somos, as nossas (poucas) virtudes, os nossos defeitos. [...] Só vos digo, amigos, tem-me dado um gozo tremendo reler muitos destes textos [...]. A não perder.



Voltemos então à questão de partida que tinha anteriormente colocado: o cronista adopta um estilo brejeiro na sua crónica aqui estampada? Acho que não. Sabe o leitor porque não me parece um estilo brejeiro e aprecio a abordagem do nosso cronista de Barcelos? Porque o homem não tem papas na língua e retrata com crueldade e muito humor o desespero do nosso quotidiano. Uma autêntica filosofia do riso, é o que é.

Brejeiro e insultuoso é antes quem nos entra todos os dias pela casa adentro através da TV (sobre a forma de canal público ou com licença pública, o que vai dar ao mesmo) com cara séria, colarinho branco, e linguagem polida depois de nos ter fodido à grande e à francesa - ui, peço desculpa ao leitor mas inclinou-se-me a caneta e deixei-me influenciar pelo estilo inconfundível do cronista que admiro.

Poderia dar o exemplo dumas recentes audições parlamentares que de tão púdico-pornográficas mostram o lodo que se entranhou na sociedade portuguesa, ao ponto de que, num qualquer concurso de reality shows, essas audições deixariam o mais conspurcado cabaret a milhas de distância. Tanto assim é que de um momento para o outro a douta comissão entendeu realizar as audições à porta fechada! Pudera.

Poderia dar um segundo exemplo que mostra o quanto hipócrita um povo pode ser: o da visita que hoje mesmo dois tristes autocarros de anónimos cidadãos da Covilhã resolveram fazer ao prisioneiro preventivo número 44, em Évora. Dizem eles que não é política!

Quanto à crónica referida sobre a Operação Marquês e a detenção de Sócrates só tenho a discordar com o seu autor quando nos diz que foi «nojenta, asquerosa mesmo, a forma como (Sócrates) foi humilhado».

Convenhamos que esta apreciação me pareceu um momento de fraqueza e redenção do cronista, o que se perdoa, embora não se concorde. Não pretendendo substituir o julgamento dos tribunais, não se pode abdicar de um juízo nem do direito a questionar: mas afinal quem está a ser diariamente humilhado com a informação que se vai sabendo sobre este processo? Quem é o humilhado com as sucessivas declarações das visitas de Sócrates? Quem são os humilhados?

24 janeiro 2015

SoundCloud with selected painting #004



Winter Reflection, Felix Hatz, 1958.

23 janeiro 2015

Propina

Contam-me que no momento da inscrição, uma estudante asiática de doutoramento pretendeu pagar a propina anual, por inteiro, em dinheiro. Não lhe terão aceite o pagamento porque, ao que parece, não se cobra a propina por inteiro! Menos ainda em dinheiro!! Não se sabe se os serviços ficaram atrapalhados com tamanha visão, mas a estudante, que nem conta bancária tinha, ficou sem saber o que fazer às notas.



E dou comigo a pensar que se isto acontecesse noutras universidades que conheço, não haveria hesitação: a arrecadação seria rápida e limpinha. Aliás, para que não haja dúvidas, nem hesitações, é isso que se deveria fazer no momento da inscrição.

21 janeiro 2015

19 janeiro 2015

O riso é uma filosofia

Uma crónica não tem que ser consensual. Ora, as crónicas de Luís Manuel Cunha no Jornal de Barcelos são tudo menos consensuais. É bom que não o sejam. Ou se adoram, ou se detestam. Eis um exemplo recente que suscitou uma questão simples, de resposta também não consensual: neste texto («A Operação Marquês cheira mal», Jornal de Barcelos, 3 de dezembro de 2014: 24) estaremos perante um estilo brejeiro? Avalie o leitor por si próprio mas, caso tenha uma vista sensível, tenha algum cuidado antes de clicar. Ainda assim, porque o cronista dá nesta crónica alguns sinais de fragilidade, espero voltar brevemente ao assunto.


Clique para aumentar e ler.

17 janeiro 2015

Repórter X - 000

Repórter X é o nome de um novo espaço deste blogue sobre boa vida e sugestões para usufruto à volta do Apartamento na Quinta do Lago e da Casa da Toca.



O nome é, em primeiro lugar, o título duma longa-metragem que gerou o cartaz afixado na sala de estar da Casa da Toca. Sala, aliás, que partilha com retratos de outras personagens notáveis do Século XX português: Almada Negreiros (1893-1970) e Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918).



Repórter X, datado de 1986, foi visionado nessa época - não me recordo de todo onde mas muito provavelmente em ante-estreia na Barata Salgueiro - e o seu cartaz foi aí arrecadado.

De acordo com José Nascimento, realizador e produtor da obra, a ideia do filme terá nascido de uma conversa com José de Matos-Cruz. O argumento, assinado por Manuel João Gomes, José Álvaro Morais e pelo próprio José Nascimento resultou, ainda de acordo com José Nascimento, de um «cruzamento de contos publicados na revista Repórter X, revista editada por Reinaldo Teles».



O título deste espaço foi pois herdado do título de um filme e correspondente cartaz que, por sua vez, o foi buscar ao nome da revista homónima e ao pseudónimo por que era conhecido o seu fundador, Reinaldo Teles (1897-1935), personagem trágica e fascinante, com feitos assinaláveis no jornalismo e na ficção dos anos 1920. A curta vida deste repórter, as histórias e peripécias que gerou e a forma anedótica e casual como o pseudónimo foi criado justificam, só por si, esta referência. Mas Repórter X é sobretudo uma forma simples e despreocupada de intitular esta coluna.

O espaço que agora se apresenta não promete regularidade. Não garante mais do que um registo subjectivo baseado em gostos e desgostos. É também ele uma pequena homenagem a um cartaz e a tudo o que ele encerra mas é sobretudo um espaço para partilhar com os leitores deste blogue sugestões de boa vida à volta do Apartamento na Quinta do Lago e da Casa da Toca.

Repórter X, boa vida e sugestões à volta do Apartamento na Quinta do Lago (Almancil, Loulé) e da Casa da Toca (Sá, Monção).

16 janeiro 2015

Breakfast









14 janeiro 2015

Tópicos (20)

Uma das questões de pesquisa susceptível de desencadear estudos interessantes é basicamente a seguinte: até que ponto e de que forma as redes sociais dão contributos efectivos para a estratégia duma empresa?



A partir dessa questão genérica é possível equacionar questões bem mais específicas que se relacionam com aquela. Por exemplo, será que as redes sociais geram benefícios para as empresas em termos de desenvolvimento e lançamento de novos produtos? Será que as redes sociais são para este efeito uma oportunidade ou uma conversa fiada? E o leitor, que está obviamente inserido em várias redes sociais - várias delas, provavelmente a maioria, sem disso ter consciência -, o que acha do papel das redes no desenvolvimento e lançamento de novos produtos? Está mesmo tentado a julgar que os efeitos são positivos? O que lhe parece?

Tópicos, sugestões de investigação nas áreas de interesse do editor deste blogue.

13 janeiro 2015

12 janeiro 2015

Men in Lycra

O El Viajero Estatuto do El País brindou-nos com uma tirada interessante sobre o fenómeno MAMIL. Não sabe o que são os MAMIL? Simplesmente Men in Lycra. Um caprichito, como ele diz.


«[...] un nuevo término para referirse a los jóvenes de entre 35 y 55 años aficionados a las bicis caras, de carretera o de montaña. Sus señas de identidad son el casco con forma de glande, el culotte y la camiseta térmica, fabricados con la misma tela que el traje de Spiderman. Los MAMIL suelen utilizar aplicaciones como Endomondo o Sports Tracker que les permiten monitorizar sus progresos y presumir en las redes sociales. [...] el fenómeno MAMIL es la nueva respuesta masculina (caprichito) ante las crisis de los 40 o los 50. Antes, los que podían se compraban un descapotable o una moto potente; ahora, una bici de más de 2.000 euros [...].»

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