2007-04-13

Distribuição de Dividendos
Por Vasco Eiriz

Tolerância sem ponto
Os mais atentos lembrar-se-ão de que a notícia do dia em 26 de Dezembro passado foi a decisão da Câmara Municipal do Porto, em particular do seu "malvado" presidente, em não conferir tolerância de ponto aos trabalhadores naquele dia. Apesar de lamentavelmente a notícia ter sido explorada pelo seu lado negativo, o certo é que não surtiu o efeito que alguns desejariam. Pelo simples facto de que, afinal de contas, se o país vivia imensas dificuldades e o Governo pedia esforços em conformidade com essas dificuldades, não se compreendeu porque haveria algo de anormal na decisão de Rio. Não se deve, por isso, estranhar que a comunicação social não tenha dado o devido destaque a nova decisão que o executivo de Rui Rio tomou já neste ano. A decisão de que, apesar de no corrente ano o calendário facultar cinco "pontes", apenas foi concedida tolerância na tarde do dia 24 de Dezembro e na tarde de quinta-feira de Páscoa ou, em alternativa, na manhã do dia 9 de Abril. Exemplarmente, a decisão foi tomada atempadamente e comunicada aos funcionários de forma também bastante atempada. Pena é que o resto do país não siga este exemplo e que chegada a véspera das "pontes", grande parte dos funcionários públicos viva na expectativa de alguém lhes conferir umas tolerâncias divinas, pagãs, ou sem qualquer culto. Refira-se, por exemplo, a minha própria universidade que, em gesto de generosidade pascal, ao feriado de 6 de Abril, entendeu acrescentar o dia 5 e o dia 9. "Para celebrar a vida" como simpaticamente informava a mensagem do reitor.

Ordem à bastonada
Ninguém gosta de ser multado. Que o diga a Ordem dos Médicos (OM) que viu o Tribunal do Comércio de Lisboa a confirmar uma multa de 230 mil euros aplicada pela Autoridade da Concorrência por ter afixado preços mínimos e máximos para a clínica privada durante mais de 20 anos. O que é chocante não é a multa que foi aplicada – qualquer observador do mundo civilizado sabe que esta prática da OM é não só ilegal como é ética e moralmente inaceitável. O que verdadeiramente deixa qualquer pessoa chocada é a forma como a OM continua, mesmo assim, a achar que tem razão neste diferendo e ameaça ir "até onde for preciso, incluindo para o Tribunal de Justiça Europeu". Como se não bastasse, o bastonário afirma que "ainda vou ver o dr. Abel Mateus, a ter de indemnizar a Ordem dos Médicos". Não haverá médicos que cheguem para curar o nosso país destes males?

Mattoso transcendental
Gostei imenso de ler a entrevista de José Mattoso, a quem a revista Única do Expresso de há dias concedeu uma capa cheia de vida. Uma peça brilhante a contrastar com o conteúdo do resto do jornal. Gostei de ler a entrevista não tanto por Mattoso, conhecedor da universidade portuguesa, reconhecer que a academia é um "meio cheio de rivalidades, de intrigas, de golpes baixos". Na verdade, isso já eu sabia pela minha própria experiência como vítima de golpes dessa natureza. Mas, como digo, o que mais me sensibilizou não foi tanto o retrato de um certo estilo académico que vai fazendo escola. Foi sobretudo a forma como Mattoso regressa às suas origens e crenças e como as suas palavras transbordam de sabedoria. Depois não deixa de ser arrepiante a normalidade com que, aos 74 anos, parece encarar o futuro: "a idade é implacável e é preciso aceitar isso, sem dramatismo, com toda a simplicidade".

O túnel
A Câmara Municipal de Lisboa escolheu o próximo dia 25 de Abril para inaugurar o túnel do marquês. Ora, devo reconhecer, a escolha da data não poderia ter sido mais acertada. Aliás, o próprio regime se tiver o mesmo rasgo de oportunidade, deverá associar-se ao evento e utilizá-lo para as comemorações oficiais do Dia da Liberdade. Afinal de contas, haverá acto mais simbólico do que inaugurar um túnel por debaixo do marquês, ainda por cima com uma saída por escavar e abrir, para celebrar as conquistas de Abril? Não será que o regime em que vivemos é ele próprio a representação de um grande túnel, obra faraónica de utilidade duvidosa e com orçamento e prazos não cumpridos que, ainda por cima (ou, mais rigorosamente, por baixo) está inacabado?

Distribuição de Dividendos, uma coluna com estatutos desblindados que não necessita de autorização da assembleia geral para distribuir dividendos e garante OPAs céleres.

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