2007-05-09

Episódios da vida académica 23

Enviei-lhe uma carta. Numa das nossas últimas conversas telefónicas tinha-me manifestado dificuldades em progredir. Dissera-me, inclusive, que se sentia "burro". Assim mesmo, sem mais nem menos. "Burro" com todas as letras. Suspeito que estava com um daqueles bloqueios típicos de quem, pela primeira vez, se aventura a pesquisar um tema com contornos ainda pouco nítidos.

Felizmente, ao contrário do que inicialmente poderia imaginar e do que é habitual, o seu problema não residia na indefinição ou escassez de objectivos de pesquisa. Antes pelo contrário, o seu problema (também ele uma virtude) foi inventariar um número porventura excessivo de objectivos que, no momento de efectuar escolhas mais precisas e operacionais, o deixaram indeciso sobre o que pretendia fazer. Alcançar todos os objectivos inicialmente definidos era pouco razoável para o período de tempo do projecto. Neste sentido, pode argumentar-se, existia alguma indefinição na formulação de um número restrito e consistente de objectivos que lhe permitissem trilhar um caminho seguro e com destino.

Foi por isso que lhe enviei uma carta, escrita no final do jantar. Nela sugeri três referências sobre metodologia para que ele não se sentisse completamente perdido com a descrição da metodologia que lhe recomendei elaborar. Pareceu-me ter chegado a altura dele desatar alguns nós e, como na nossa última conversa telefónica fiquei com a ideia de que lhe agradou a abordagem que lhe tinha anteriormente sugerido noutra conversa, então, caso ele atendesse à minha sugestão, as decisões metodológicas não poderiam ser mais adiadas.

No fim tudo correu como imaginei. Foi estudada a forma como uma rede de actores institucionais num sector industrial contribui ou pode contribuir para gerar e disseminar conhecimento no e sobre o sector. Uma das decisões que incontornavelmente tiveram que ser tomadas foi sobre a delimitação dessa rede a actores estritamente sectoriais como, por exemplo, centros tecnológicos e associações empresariais ou, como numa primeira leitura me pareceu fazer mais sentido, alargar essa rede a actores institucionais de fora do sector mas que com ele se relacionam como, por exemplo, universidades e várias entidades governamentais. Por isso mesmo "Case Study Research: Design and Methods" de Robert K. Yin (Sage Publications, 2003), "Learning from Case Studies" de Geoff Easton (Sage Publications, 1992) e "Qualitative Researching" de Jennifer Mason (Sage Publications, 2002) eram leituras introdutórias que recomendei na minha carta para desenhar a metodologia do estudo.

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