2007-06-27

Corporações

"Na entrevista da edição desta semana do Jornal de Leiria, Armando Vieira, natural da Batalha e docente universitário no Porto, põe a nu algumas deficiências do ensino em Portugal, colocando o dedo em várias feridas. Segundo aquele doutorado em Física Teórica, o problema começa logo no 1º ciclo, onde é privilegiada a memorização e o estereotipo em detrimento da reflexão e criatividade, o que talvez possa explicar a pouca autonomia dos nossos alunos e a reduzida vocação científica dos portugueses. É, no entanto, ao ensino superior que Armando Vieira aponta mais criticas, referindo-se às Universidades como das instituições mais conservadores e avessas à mudança e classificando o modelo actual como "feudal" pois "está centrado nos professores e não nos alunos". Ou seja, as universidades, ao invés de serem, como seria de supor, dinamizadoras de mudança e inovação e abertas a novos modelos fazendo chegar esse entendimento à sociedade através dos alunos que por lá passam, revelam o mesmo conservadorismo de outras instituições, onde quem está instalado não gosta de ver perigar o seu lugar e protagonismo. As decisões e reivindicações têm, muitas vezes, mais a ver com a defesa dos interesses próprios do que com os dos alunos. A opinião deste professor, que admite deixar o ensino, vai ao encontro do que muitas vezes se ouve acerca da forma como funciona o ensino superior em Portugal. Lutas internas pelo poder, inveja pelo êxito alheio, pouca disponibilidade para os alunos, trabalhos solicitados para uso próprio, investigação abaixo do exigido ou aulas mal preparadas e dadas de forma idêntica há décadas são alguns aspectos menos positivos do dia-a-dia das nossas instituições de ensino superior, relatados por alunos e professores e percebidos, por algumas noticias, dadas pela comunicação social. Quem nunca ouviu alguém que está a fazer mestrado ou doutoramento, queixar-se de que não consegue falar com o orientador, ou que este não lhe lê a tese entregue há meses? Quantas pessoas que passaram pelo ensino superior não tiveram a experiência de serem "empurradas" para determinado tema na execução de um trabalho, por dar jeito ao professor para a sua tese ou qualquer artigo científico que ande a preparar? Quem não sentiu que determinado aluno foi escolhido para uma bolsa ou um programa cientifico por ser aluno do professor X, como o nosso entrevistado refere e a que chama "incesto intelectual"? Felizmente que há ainda muitos exemplos de quem não se deixa envolver por este ambiente retrogrado e castrador, rompendo com o cinzentismo e tráfico de influências e favores que dominam muitas das instituições de ensino superior português, nomeadamente as mais antigas."

Nazário, João (2007). "Corporações", Jornal de Leiria (24 de Maio).

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