2007-07-22

Clínica Geral

E-health
Por José Figueiredo

Imaginemos que recuávamos vinte anos, e que éramos clientes de um banco. A imagem era esta: levantar dinheiro ao balcão de um banco, através da emissão de um cheque; depositar dinheiro nesse mesmo balcão, estando alguns minutos numa fila; pagamento das contas do telefone, nos balcões dos CTT; pagamento da conta da electricidade, no balcão da EDP; preenchimento de um formulário para solicitar a aquisição de um livro de cheques; e por aí fora.

Não vamos dizer o que se passa hoje. Mas, temos uma certeza, é possível fazer muito mais coisas hoje e de forma cómoda, graças à inovação dos sistemas informáticos. Hoje, tranquilamente em casa, podemos comprar acções na Bolsa de Tóquio, ou proceder à requisição de cheques, através de uma máquina Multibanco.

Dito isto, e passando para o sector da saúde, não conseguimos conceber que na generalidade dos Centros de Saúde existentes em Portugal, as pessoas tenham que se levantar ainda de noite, para irem para uma fila, para ficarem à espera que o referido Centro de Saúde abra, e lhe forneçam uma senha para que eventualmente venham a ser atendidos, nesse mesmo dia.

Assim, como não conseguimos entender, que o Serviço Nacional de Saúde esteja imerso em carimbos, vinhetas e outros controlos administrativo e burocráticos. Pior, apesar destes “controlos administrativos”, vemos nos jornais que o sistema de assistência dos funcionários públicos, vulgo ADSE, não tem um controlo efectivo sobre os meios complementares de diagnóstico (por exemplo: raio – x, ecografias, ou análises clínicas) que realmente lhe são fornecidos, e que realmente paga.

Este artigo tem por título "E–Health", que não é mais do que em português comum: sistemas informáticos aplicados à saúde. Mas, afinal, porquê que no sector bancário o cliente tem tantas possibilidades de funcionar à distância de um "click", e no sector da saúde só existem papéis, carimbos, assinaturas, protocolos e afins?

Mais, Portugal é membro da União Europeia, e esta teve já diversas iniciativas no âmbito do "e–health". Entre outros objectivos pretendia-se que a saúde se focasse mais no doente. Contudo, o sector da saúde em Portugal continua a ser orientado em função dos seus profissionais e não em função do doente. Veja-se o simples caso do receituário farmacêutico, que muitas veze, nem o próprio prestador entende o que escreve, o que no limite pode até conduzir a erros clínicos graves! Porquê que nesta era da tecnologia, as receitas não são todas escritas de forma electrónica?

Pensemos na vantagem que teríamos se existisse um ficheiro electrónico de cada pessoa, em que estaria registado tudo, desde o nome, data de nascimento, doenças passadas, doenças de familiares próximos, medicamentos tomados, especialidades médicas registadas, e, entre outros, exames clínicos ao longo da vida. Se existisse este tal "ficheiro electrónico do doente", quantas palavras não pouparíamos ao longo da nossa vida, e que comodidade imensa teríamos de cada vez que fossemos a um novo médico, e não tivéssemos que contar a nossa história clínica mais uma vez.

José Figueiredo, autor da coluna Clínica Geral, é licenciado em Gestão de Empresas pelo ISCTE e pós-graduado em Marketing pela Universidade Católica Portuguesa. Possui vasta experiência profissional em empresas de vários sectores. É docente do Instituto Politécnico de Santarém, consultor na Allcare Management e investigador de doutoramento em Ciências Empresariais na Universidade do Minho.

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