2007-11-16

EmpreenLer

O um pelo outro
Por Dora Gonçalves

A propósito de comunicar. A propósito de chegar a quem está do outro lado. A propósito de emissores e receptores, canal e mensagem num meio que (também) somos nós. A propósito de tudo isto, estando incumbida de preparar uma acção de formação, descobri com mais detalhe Eugène Delacroix, grande pintor do romantismo francês, século XIX.

Delacroix, dizem, dramatizava os seus quadros; exagerava nas consequências dos cenários que o impeliam a pintar. O exagero é a consequência do (des)contentamento, penso.

Mas a minha descoberta deste artista foi compulsada por uma frase que considero deliciosamente honesta. Diz Delacroix que «o homem é um animal sociável que detesta os seus semelhantes». Não é que seja algo de novo ou surpreendente; e, talvez por isso, me questione: porque é que se insiste em negá-lo? Porque é que todos nós teimamos em não perceber que somos mesmo assim?

Provavelmente, estará o leitor a pensar que sou instigadora de conflitos e/ou uma pessoa que detesta o seu semelhante. Não: não é de todo essa a minha natureza; antes pelo contrário. Sou uma apaixonada pelo carácter, vigor e fragilidade humana. E precisamente por sê-lo é que acredito que nos devemos conhecer exactamente como somos. O problema de cada um de nós reside na falta de auto-conhecimento e na forma como encontramos sempre um motivo para nos desculparmos do que somos, sem nos olharmos de frente. Paul Valéry – filósofo francês, escritor e poeta - dizia que os homens se distinguem por aquilo que mostram e assemelham-se por aquilo que escondem. É, de facto, mais fácil ocultar, negar; mais: renegar os nossos defeitos porque achamos que nos diminui. Mas a que é que isso nos leva, indago-me?

Na antiguidade grega, a máxima era a do culto pelo corpo e pela inteligência. A perfeição residia, acreditavam eles, no equilíbrio entre estas duas vertentes. Não posso deixar de acrescentar mais uma: a que nos está mais próxima, aquela que nos é intrínseca – o Eu.

José Saramago retrata muito bem o âmago da humanidade quando se vê envolta numa situação trágica e inesperada. O cenário? «Ensaio sobre a cegueira». Uma forma sublime de mostrar ao que é que a humanidade chega, numa primeira instância no que respeita ao individualismo e, posteriormente, perante a desgraça, a miséria, o caos. Por outro lado, temos o inconfundível Dostoievsky, com «Crime e Castigo», que penetra na essência da loucura individual quando já nada mais resta, a não ser o domínio dos pensamentos sobre o indivíduo.

O relacionamento humano é delicado, difícil e susceptível de ambiguidades, interpretações e dúvidas. A forma como lidamos connosco é também ela calcinada pela maré a que chamamos Os Outros. Há dissemelhanças inegáveis entre homens e mulheres; há. Há diferenças entre povos, sociedades e épocas; há. Mas falar de tudo isto, desta forma, é generalizar o que não é generalizável. E Delacroix, e Valéry generalizaram. E eu gostei. E fiquei presa ao pensamento que me talha também a vida. E tudo isto veio a propósito de comunicar. Porque tudo isto é comunicar.

Dora Gonçalves, co-autora da coluna EmpreenLer, faz da vida uma enorme folha em branco. Com as palavras transforma todas as folhas em branco em enormes vidas. Escreve para viver e trabalha para subsistir. Foi jornalista e faz, pontualmente, trabalhos na área da assessoria de comunicação. É consultora de profissão e autora por vocação dos blogues http://ahoraosexactossegundos.blogspot.com e http://cronicasultimahora.blogspot.com. Tem, sobre si, a mesma visão do que todos os outros. Mas por dentro.

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