2008-01-10

O desespero do Manel e as indecisões da Maria

Já aqui se escreveu que a estratégia Maria vai com todas é a opção mais provável para as instituições de ensino superior, significando isso que, na incerteza, o mais provável é optarem por manter a sua personalidade jurídica actual. Se assim fosse, o ministro do sector ficaria com um problema: a sua lei prevê a figura de fundação e se ninguém comprasse a ideia, o ministro ficaria numa posição frágil, tanto mais que a sua faculdade e a sua universidade - Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa, precisamente uma das que se admitia poder avançar para a figura de fundação - já rejeitaram a ideia. Ou seja, seria aceitável para o ministro que depois duma reforma legislativa tão "profunda" ficasse tudo na mesma? Claro que não.

Não deve, por isso, estranhar-nos que o ministro tenha por estes dias feito um road show fundacional, com raids surpresa na Universidade do Porto e no ISCTE para explicar o que é uma fundação e vender a ideia a instituições em que, não por acaso, os seus líderes máximos defendem a mudança. Ou seja, o ministro anda de facto desesperadamente à procura duma instituição que se "fundacione" e rompa com o conluio que é comum no sector.

Precisamente por causa disto, não é surpresa que a Universidade de Aveiro - umas das mais pequenas e dinâmicas universidades portuguesas - esteja, como se depreende das palavras da sua reitora, também ela a ensaiar o passo: «a assembleia irá continuar os seus trabalhos de acordo com duas linhas de actuação: a discussão sobre os novos estatutos, por um lado, e o diálogo com a tutela sobre o projecto da UA e sobre o enquadramento fundacional, por outro» (afirmação da reitora de Aveiro citada pelo Público). Este posicionamento a que simplificadamente podemos chamar «quero muito mas ...» é sobretudo uma chamada de atenção ao Governo como quem diz: «estamos dispostos a ser fundação, mas temos muitas dúvidas e queremos que o Governo nos mostre e garanta condições de sustentabilidade».


Estamos pois numa fase em que a Maria está com grandes dúvidas: «Deverei eu continuar com as minhas amigas ou seguir os conselhos do Manel?» Sejamos realistas: Maria prefere o Manel. Mas coloca condições. Em primeiro lugar, não aceita partilhar o Manel com todas as Marias; quer uma segurança que lhe garanta o futuro e que só o Manel lhe pode dar. Em segundo lugar, na hipótese provável do Manel se revelar um parceiro que não garante o futuro e, ele próprio, começar a lidar com todas as Marias - e este Manel tem dado provas suficientes de que faz jogo duplo com todas as Marias -, então cada Maria poderá preferir manter-se como está na companhia de todas as restantes Marias. Uma outra hipótese, é a generalidade das Marias - que adoram imitar-se umas às outras - lhes dar a todas elas um súbito ataque fundacional, o que a verificar-se vem confirmar a hipótese Maria vai com todas.

Embora o editor deste blogue seja inequivocamente favorável à adopção do modelo fundacional, a verdade é que compreende os receios das Marias. Seria, por isso, de bom senso que as Marias soubessem de forma clara e completa o que podem esperar da política do Manel nesta matéria. Mas o certo é que o Manel não só não é claro na sua política como, ainda por cima, demonstrou no passado gerir o sector sem transparência. Esta forma indelicada do Manel lidar com as Marias é triste. Trata-se, infelizmente, dum terrível mal que as Marias muito criticam em privado, embora em público prefiram dar-se bem com o Manel. Criticam-lhe o feitio e com toda a razão. Mas o certo é que existem Marias que, de forma talvez ainda mais chocante, replicam esse tratamento com as suas Mariasinhas. Isto é, há reitorias que tratam as faculdades, funcionários e docentes das suas universidades de forma ainda pior do que o Manel as trata a elas.

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