2008-02-21

Connectis

E no entanto ela move-se!
Por Sílvio Brito

Há cerca de 500 anos Galileu Galilei abjurava perante o Santo Tribunal da Inquisição que a Terra e outros planetas gravitavam em redor do Sol. A intenção não era evitar que o sábio pudesse servir os desígnios do mal mas sim abdicar à sua capacidade de empreender, pois essa qualidade apenas seria para alguns e atribuída, portanto, não ensinada. Era conveniente que o genial inventor do método científico (que hoje podemos utilizar para expressar livremente o nosso conhecimento, o nosso saber, e transmiti-lo às gerações vindouras), fosse convidado a abafar a sua opinião, e a sua atitude sobre as coisas deste mundo e do outro.

Felizmente torceu o nariz e soletrou em voz baixa o título deste opúsculo, constituindo um grito à capacidade de empreender, discordando perante a autoridade máxima: à Divindade e não aos homens, ao cérebro e não ao músculo do vilipêndio, da inveja, da maledicência, e da divisão entre pessoas, das trevas, da ignorância, de tal forma que séculos mais tarde, um outro grande empreendedor (deduzo, que saibam quem foi), como representante máximo da Instituição que o condenou, veio dar razão reconhecendo os seus conhecimentos e o seu contributo para a Humanidade.

Quando nos obrigam a ser incoerentes com as nossas decisões, quando não nos deixam partilhar uma visão ou colocarem-nos umas “lentes opinantes” para que passemos por míopes, recordemos este facto histórico, e renunciemos à burocracia e às contradições geradas por interesses mesquinhos e superficiais e saibamos assumir, baixinho, gritando contra as indiferenças, que somos capazes de fazer grandes coisas nas organizações a partir de tarefas simples, que somos capazes de trabalhar e de gerar nas mesmas conhecimentos pequenos que, agregados e partilhados com outros, produzirão excelentes produtos e serviços, como representou este simples e grandioso episódio histórico, cujas repercussões ainda ecoarão por muitos e bons séculos.

Aproveitemos as circunstâncias singelas e as pequenas oportunidades para empreender a nossa caminhada. Veja-se o filme “Os Condenados de Shawshank” em que um banqueiro condenado a prisão perpétua inicia o salto para a sua liberdade, obtida por uma fuga trinta anos depois, com uma simples colher de pedreiro e com uma amizade, ou o velho ditado chinês: Uma longa viagem começa com um passo.

O empreendedorismo é isso mesmo, ele move-se e é fruto do nosso movimento, e no Ensino deveria começar pelo Ensino Primário e não pelo Ensino Superior. Mais vale uma lição bem ensinada que 50 mal ensinadas, assim como mais vale uma lição bem sabida que 50 mal sabidas.

E no entanto, movimentemo-nos!

Sílvio Brito é licenciado em Gestão dos Recursos Humanos e Psicologia do Trabalho pelo ISLA, Mestre em Gestão, na área do Comportamento Organizacional, pela Universidade Lusíada, e Doutor em Psicologia Evolutiva e da Educação, pela Universidad de Extremadura, Espanha.

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