2008-03-18

Connectis

Empreendedorismo e performance
Por João Leitão

A capacidade individual de empreendedorismo é um conceito introduzido, recentemente, por David Audretsch e Erik Monsen na literatura sobre empreendedorismo. Esta capacidade diz respeito ao poder do indivíduo para determinar a performance e o sucesso de uma determinada organização.

No quadro teórico respeitante à gestão das organizações, são detectáveis diversos estudos sobre o impacte de diferentes tipos de capital, designadamente, o humano, o organizacional, o social, o relacional e o intelectual sobre a performance económica das organizações.

Tendo em consideração o conceito de Audretsch e Monsen, e as evidências empíricas sobre o impacte da tipologia de capitais sobre o nível de performance das organizações, surgiu-nos a ideia, a mim, João Leitão e, ao Mário Franco, de propor e testar um modelo conceptual que permitisse aferir do real impacte e da natureza das relações estabelecidas entre a referida capacidade individual de empreendedorismo e a performance das organizações.

Neste sentido, considerou-se que a capacidade individual de empreendedorismo é composta por duas unidades de capital fundamentais: o Humano e o Organizacional. Esta é uma formulação parcial e passível de expansão que, contudo, constitui uma abordagem inovadora, dada a falta de estudos acerca da importância de diferentes tipos de capital, ao nível do indivíduo, e dentro de uma organização, em termos da determinação tanto da performance económica (ou seja, o valor acrescentado) como da performance não económica (isto é, o grau de satisfação dos colaboradores) das organizações. Para este efeito, as características individuais do empreendedor são capturadas através do uso de diferentes variáveis que integram as diferentes dimensões da proposta de modelo conceptual.

No que concerne ao Capital Humano, consideram-se três dimensões: (a) características individuais; (b) Push de Gestão; e (c) Pull de Gestão. Relativamente ao Capital Organizacional, definem-se quatro dimensões: (i) Comportamento Empreendedor Individual; (ii) Comportamento Empreendedor Colectivo; (iii) Práticas de Gestão; e (iv) Cultura Organizacional (em termos de Super-Estrutura e Sócio-Estrutura).

Os resultados obtidos através da utilização de métodos de estimação apontam no sentido de que, por um lado, a performance não económica das organizações é afectada, positivamente, pelo entusiasmo colocado no trabalho, pelos incentivos à discussão interdisciplinar e diálogo, e pela existência de uma estrutura organizacional eficiente. Por outro lado, a performance não económica das organizações é afectada, negativamente, pela realização de reuniões inter-departamentais e pela aplicação de práticas de gestão participativa.

No que respeita à performance económica das organizações, esta é afectada, positivamente, pelo desenvolvimento de actividades inovadoras, pela existência de uma estrutura organizacional eficiente e pelo uso de indicadores externos orientados para a melhoria da performance. Por seu turno, a performance económica é ainda afectada, negativamente, pelo uso de intuição dos dirigentes na condução das actividades principais da organização.

Deve realçar-se que a única variável que impacta, positivamente, sobre os dois tipos de performance das organizações é, exactamente, a existência de uma estrutura organizacional eficiente.

Os resultados desta investigação são, particularmente, importantes pois sugerem a necessidade de desenhar programas formais orientados para o reforço da propensão para o desenvolvimento de actividades inovadoras, num contexto organizacional, mas focados no indivíduo e nos colaboradores tanto internos como externos.

Para promover a performance não económica das organizações, os responsáveis pela gestão das organizações devem apostar no fomento do entusiasmo colocado no trabalho, bem como na criação de incentivos internos para a discussão interdisciplinar e para o diálogo crítico e respeitador pelas diferenças. Além disso, deve realçar-se que os responsáveis devem evitar a entropia que, por vezes, tem origem na realização de reuniões de carácter inter-departamental e na adopção de práticas de gestão participativa que contemplam os interesses individuais ou de grupos, mais ou menos organizados, mas não os interesses institucionais, nem tão pouco os verdadeiros interesses individuais de superação diária da performance da organização onde trabalha.

Em termos futuros, interessa ainda explorar as relações entre outros tipos de capital (como por exemplo, o director, o relacional e o ideológico), a capacidade cognitiva da organização e a performance da organização.

João Leitão é professor auxiliar na Universidade da Beira Interior. Edita o New Economics Papers e coordena a edição da International Review of Business and Economics (nova edição da Revista de Gestão e Economia).

Instagrams

© Vasco Eiriz. Design by Fearne.