2008-03-27

Teatro na inflação

A julgar por um dos temas em destaque na agenda noticiosa de hoje da Antena 1, provavelmente quem aí trabalha só agora começou a ir ao supermercado e a perceber a escalada inflacionista em muitos bens alimentares e não só. De facto, uma das questões que essa rádio entendeu colocar hoje é a causa da enorme subida de preços que se tem registando recentemente. Não por acaso, também aqui interessa destacar o tema repescando uma "posta" publicada em 14 de Janeiro último, já lá vão mais de dois meses, com o título "Cabaz de ministro". Escrevia-se então o seguinte:

«Nos tempos da inflação galopante, Portugal teve um ministro das finanças que justificava o controlo da taxa de inflação com um argumento que, à falta de melhor, eu chamaria doméstico. Dizia ele que a esposa ía às compras ao mercado e não notava que os bens estivessem mais caros. A coisa era, como se vê, anedótica, mas - convenhámos - estava ao nível da política económica que então se praticava (e, em certa medida, ainda se pratica). Mas o certo é que nos tempos que correm, em que nos apresentam taxas de inflação sempre baixinhas, começa também a ser anedótico acreditar na aderência dos números do INE à realidade da maioria das famílias portuguesas. Não seria, por isso, pior se alguns ministros fossem também eles próprios ao mercado - quiçá na companhia de alguns técnicos do INE - comprar combustível, pão, leite, electricidade, água e outros bens básicos. E depois que nos digam qual é a taxa de inflação. Definitivamente, os números que ouço propagandear não se me aplicam.»

Naturalmente, como normalmente os ministros não são parvos (exceptuando alguns casos muito conhecidos, evidentemente), entenderam brindar-nos no dia de ontem com uma descida da taxa do IVA. Para além da evidente intenção eleitoralista, não terá escapado ao Governo o receio do descontrolo inflacionista que esta medida poderá ajudar a aliviar. Na óptica mais imediata do cidadão, o seu único benefício é, contudo, o de colocar a taxa num número que facilita as contas (excepto se fôr jornalista da RTP e pretenda comprar uma camisa de 50 euros daqui a uns meses, caso em que parece haver mais um benefício).

Não deve ser também por acaso que a notícia foi tornada ontem pública, embora, tanto quanto sei, o conselho de minsitro reuna às quintas-feiras para decidir estas coisas. É que hoje é o dia mundial do teatro e o anúncio desta medida hoje mesmo poderia assumir uma conotação teatral que, efectivamente, apesar de tudo, possui. Sem menosprezo para o teatro, evidentemente.

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