2008-05-07

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Inovação e coesão social
Por Ana Paula Faria

Durante as últimas duas décadas assistiu-se a significativas alterações no mercado de trabalho e na composição industrial na generalidade dos países. No mercado de trabalho verificou-se, por um lado, o aumento da procura de trabalho qualificado e, por outro lado, o aumento dos níveis de desemprego do trabalho não-qualificado. Na composição industrial assistiu-se a um maior crescimento dos sectores intensivos em trabalho qualificado e a um aumento da produção de bens intensivos em conhecimento (ex: software, tecnologias de informação e comunicação, etc.). Estas alterações devem-se a duas razões principais. Primeiro, devido à intensificação da concorrência, o que torna difícil a sobrevivência assente numa estratégia de produtos tradicionais e intensivos em trabalho não-qualificado. Segundo, devido aos rápidos avanços na inovação e mudança tecnológica, o que permite reduções de preços e elevadas taxas de difusão tecnológica e leva a um aumento na procura de trabalho qualificado.

Estas transformações reflectem o novo regime económico que caracteriza actualmente as economias mais desenvolvidas e que se define como sendo a economia do conhecimento. Por outras palavras, tal significa que no novo contexto económico o conhecimento é essencial na determinação do crescimento económico. Assim, dado que a competitividade dos indivíduos, empresas e países reflecte a capacidade que cada agente tem em aprender e aumentar o seu conhecimento, entre os objectivos centrais da política económica dos vários governos da União Europeia encontram-se o reforço do conhecimento existente na sociedade, o investimento em infra-estruturas de informação e a promoção da inovação tecnológica.

Ora, apesar dos seus efeitos positivos na competitividade, a mudança tecnológica pode induzir fortes desigualdades sociais ao excluir da actividade económica aqueles que não estão aptos a lidar com as novas tecnologias. Esta desigualdade social é assim uma ameaça para a capacidade de renovação das estruturas económicas, o que significa que a economia do conhecimento não sobrevive num ambiente onde parte da população se encontra excluída da vida económica. Assim, o novo regime económico tem duas implicações importantes para a política económica. Primeiro, o investimento em nova tecnologia não pode esquecer a competência dos utilizadores e as necessidades organizacionais e sociais. Isto porque a tecnologia é um instrumento e não um fim em si, logo o seu impacto depende das capacidades de quem a utiliza. Segundo, as políticas de Ciência e Tecnologia devem ser definidas num contexto mais abrangente em termos sociais. Isto porque a aprendizagem é um processo essencialmente social, portanto para que a aprendizagem seja efectiva é necessário que exista coesão social. Em suma, para que uma economia seja competitiva é necessário fortalecer a sua capacidade de produzir e absorver novo conhecimento.

Ana Paula Faria é professora da Universidade do Minho. Possui o PhD em economia pela University of Nottinghan (Reino Unido) e as suas áreas de interesse académico incluem temas como a inovação e mudança tecnológica, produtividade e eficiência.

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