2008-07-01

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As desigualdades da responsabilidade social
Por Pedro Neves

Muito se tem escrito e falado sobre a responsabilidade social das empresas. É hoje em dia uma das bandeiras de todas as empresas que se consideram "preocupadas" com o meio em que se inserem. Mas logo a seguir levanta-se a seguinte questão: não deveria existir uma relação entre a responsabilidade social e as próprias práticas internas das organizações? Se olharmos para os resultados recentes do Eurostat percebemos o porquê desta questão.

A função de responsabilidade social das organizações prende-se com "a integração voluntária de preocupações sociais e ambientais nas suas operações e na sua interacção com todas as partes interessadas" (IAPMEI, 2005). Esta tem sido, se prestarmos atenção ao discurso de quase todas as empresas portuguesas, uma das grandes preocupações actuais dos nossos gestore. Ao que parece, as desigualdades e problemas sociais são preocupantes e as empresas podem – e devem – ter uma função reguladora importante. Assim, muitas empresas têm programas sociais em que dão brinquedos e roupa, recolhem pilhas, coleccionam tampinhas e por aí fora.

Entretanto, saiu o último relatório do Eurostat que mostra não só que Portugal está – uma vez mais – no fundo da tabela europeia no que respeita à desigualdade, mas como as desigualdades sociais começam no seio das próprias empresas. Por exemplo, a diferença de salários entre administradores e restantes colaboradores é alarmante. O próprio Presidente da República, no seu discurso de ano novo e em declarações aos media considera os salários dos altos dirigentes "injustificados e desproporcionados". Enquanto em Espanha os administradores ganham 15 vezes mais do que os restantes colaboradores e no Reino Unido 14 vezes mais, em Portugal esse valor ascende a 32 vezes mais. Da mesma maneira, os 20 por cento mais ricos de Portugal têm um rendimento 8,2 vezes superior aos 20 por cento mais pobres, ao passo que em Espanha e Reino Unido é de 5,4 e 5,5 vezes respectivamente.

Mas afinal não são estas as empresas que estão cada vez mais a criar programas de responsabilidade social? Como diz o povo, "não bate a bota com a perdigota". Se o objectivo é de facto contribuir, de forma voluntária, para a redução das desigualdades, parece-me que existem outras formas bem mais eficazes de o fazer. Não pensem que considero a responsabilidade social uma perda de tempo. Penso só que dar brinquedos a crianças ao mesmo tempo que se contrata de forma precária (ou se despede) os pais dessas mesmas crianças, destituindo-os da possibilidade de eles próprios comprarem esses brinquedos não é a combinação mais eficaz para reduzir as desigualdades.

A responsabilidade social faz todo o sentido, mas só quando enquadrada nas práticas globais das empresas. E há ainda bons exemplos que nos mostram como produtividade e lucro podem andar de mãos dadas com a vontade de reduzir, efectivamente, as desigualdades sociais. Só temos de olhar com atenção, escolhendo essas empresas em detrimento das outras.

Pedro Neves é Doutor na especialidade de Comportamento Organizacional. É actualmente Professor Auxiliar Convidado na Universidade de Évora. Os seus interesses de investigação incluem o estudo da confiança e gestão de comportamentos de assunção de risco em contexto organizacional, bem como a avaliação de processos de mudança organizacional.
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