2008-11-18

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Empreendedorismo, mudança e regionalização tecnológica
Por João Leitão

Escrevo este manifesto crítico numa semana importante para Portugal, para a Cova da Beira e para a Universidade da Beira Interior (UBI), dado que pela primeira vez, a mais prestigiada conferência Europeia de Empreendedorismo científico - RENT XXII - vai ter lugar em solo nacional, mais concretamente na Covilhã. A organização é do European Council of Small Business (ECSB) e do European Institute for Advanced Studies in Management (EIASM).

A UBI será condignamente a instituição de acolhimento deste prestigiado evento científico de cariz internacional que mapeia de vez a investigação na área de Empreendedorismo e Mudança Tecnológica, como uma área emergente e de excelência no panorama das ciências económicas, empresariais e de engenharia. Adicionalmente, sinaliza a sua importância, em matéria de apoio à decisão pública e empresarial, num contexto internacional com base em economias regionais crescentemente globalizadas, abertas e sujeitas a processos de mudança.

Sem falsos exercícios de protagonismo exacerbado, do tipo, eu sou o master organizador, não resisto porém a contar a história de conquista da organização deste evento científico. Tudo começou em Fevereiro de 2007, quando um jovem professor auxiliar da UBI se aventurou, a expensas próprias, a realizar uma viagem de ida e volta, entre Covilhã e Montpelier, de nada mais, nada menos, do que 42 horas. Nesse tempo, o dito jovem, encetou negociações no sentido de uma cidade média do interior de Portugal, a Covilhã, vir a receber um evento até então realizado em cidades de outra dimensão, tais como, Londres, Bruxelas, Viena e mais recentemente Cardiff.

Foi portanto a definição Schumpeteriana de Entrepreneur que me guiou, ou seja, aquele que, não obstante enfrentar adversidades e resistências à mudança, tem capacidade para aplicar um filtro de conhecimento que permite comercializar um ideia criativa, com pleno sucesso.

É exactamente a falta de compreensão da importância do Entrepreneur, como agente determinante do processo de criação destrutiva, que atira o nosso país para um posicionamento taciturno e claramente destrutivo, no sentido de que a capacidade de iniciativa e inovação, é frequentemente minada para dar lugar a uma classe de incompetentes privilegiados e resguardados por decisores “instalados” que temem a mudança.

Em termos simples, vivemos hoje embrenhados numa rede institucional densa de interesses e favores, o que contribui, seriamente, para o bloqueio de um processo global que contemple diferentes níveis de mudança, designadamente, a institucional, a organizacional e, sobretudo, a cultural.

Relativamente à mudança institucional, esta será impraticável caso o favorecimento, o compadrio, a chantagem emocional e pessoal, e a clubite política não sejam varridas de uma vez por todas, em especial, nas organizações de cariz público. O país está ferido de morte e viabilidade, se não for injectado sangue novo e independente no governo das instituições públicas, tal é o peso dos “instalados”.

A mudança organizacional baseada na desblindagem da falsa protecção social é uma prioridade. Todos deveremos ter preocupações sociais, mas não as arreigadas a movimentos corporativos fraudulentos e orquestrados que minam o desenvolvimento e o crescimento das organizações, em nome dos direitos, muitas vezes, falsamente conquistados, como facilmente se comprova com os casos das pessoas que recusam ter cartão às claras ou às cegas.

Já no que concerne à mudança cultural, o Povo Português sempre foi risk lover, pelo menos nos exemplos de sucesso que interessa lembrar para alguns. Mas, em tempo de mudança uma importante sugestão prende-se com a possível valorização daqueles que falharam, mas que não deixaram de tentar. Os males típicos de inveja e de complexo de inferioridade, em tamanho, postura e educação, também deveriam ser perfeitamente banidos.

A aposta numa cultura positiva orientada para a mudança, aos três níveis referidos, bem como para a identificação do que melhor temos como Povo Empreendedor e Inovador, deve ter início com a identificação das nossas superioridades comparativas, em termos regionais. É nas regiões que reside o motor de desenvolvimento das nações, e embora o tri-dente seja in e desejado, ainda não é plenamente “compreendido” pela generalidade dos agentes decisores nas esferas pública e privada.

Tomar o Empreendedorismo qualificado, de base tecnológica, e não o de sobrevivência, tão característico de Portugal, como a alavanca de desenvolvimento das regiões é apostar num driver tecnológico, que irá gerar instabilidade ao nível do emprego, mas que pela qualificação e retenção de capital humano qualificado independente pode surtir efeitos de carácter inter-temporal passíveis de promover a sustentabilidade de zonas desfavorecidas e deprimidas, em especial, no interior do país, exceptuando as ilhas que têm estabelecimentos de ensino superior universitário ou politécnico e que, por vezes, alimentam flops mediáticos de desenvolvimento sem qualquer tipo de consistência, mas sempre à espera da vinda do D. Sebastião Investidor.

Por mim é tempo de reabilitar uma mentalidade Pombalina (tão detestada pelos instalados da vida…) que verse a inovação disruptiva, cuja actualidade e visão estratégica se prolongue no tempo. Um passo positivo, mas pequeno, foi dado na semana passada com o anúncio público da iniciativa Pólos de Competitividade, mas sou de opinião que se pode tentar ir mais longe. Como? Promovendo a partir dos Pólos de Competitividade e da Rede Nacional de LivingLabs (em construção) uma reformulação institucional dos principais players regionais.

A realização da RENT XXII é uma oportunidade para promover o debate da regionalização tecnológica, isto se quisermos efectivamente a mudança, em especial, aquela que possa irrigar com sangue novo o governo das instituições e a reformulação das regras de entrada, crescimento, (re)conhecimento do mérito e saída dignificada, nos mais diferentes quadrantes de actividade pública e privada.

João Leitão é professor auxiliar convidado na Universidade Técnica de Lisboa. Edita o New Economics Papers. É Covilhanense de criação e educação, UBIano de formação.

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