2010-06-20

Parque das Caldas

Empreendedorismo social
Por Vasco Eiriz de Sousa

Há alguns meses, numa conferência sobre empreendedorismo, colocaram-me uma questão difícil. Um assistente atento perguntou-me se nos dias de hoje, caracterizados por elevados níveis de rivalidade e competição, haveria ainda lugar a iniciativas empreendedoras motivadas por razões de ordem altruísta.

A questão foi colocada na sequência duma comunicação em que tinha acabado de destacar o altruísmo como um dos incentivos ao empreendedorismo. Recordo-me de ter dito que, talvez como nunca, se assiste a um movimento em que muitos empreendedores encontram motivos de ordem social e de natureza não lucrativa para as suas empresas e acções nos mais diversos domínios da sociedade.

Exemplifiquei com as inúmeras causas sociais e de voluntariado para protecção de franjas desfavorecidas da sociedade, nomeadamente idosos, doentes, crianças e grupos populacionais com dificuldades económicas, ou o sem número de iniciativas de cariz cultural, desportivo ou político que mobilizam grupos de cidadãos em prol de causas que os unem.

Geralmente estas iniciativas encontram-se estruturadas em organizações não governamentais, predominantemente de natureza não lucrativa. Tradicionalmente envolvem organizações como associações e cooperativas, mas também não é raro organizarem-se em sociedades comerciais e noutros tipos de estruturas formais.

Cada vez mais, as possibilidades conferidas pelas tecnologias de informação e comunicação tem levado, por outro lado, muitos destes grupos a organizarem-se informalmente no seio de comunidades electrónicas da mais variada natureza como fóruns de discussão, grupos electrónicos, blogues ou espaços virtuais de relacionamento.

Há exemplos conhecidos em Portugal e no mundo inteiro que ilustram movimentos empreendedores de natureza social. Foi esse o caso do movimento desencadeado por várias organizações não governamentais de ajuda às vítimas do "tsunami" que varreu a Ásia em Dezembro de 2004.

E se dúvidas existissem sobre a necessidade de muitas destas entidades adoptarem receitas da empresa tradicional que envolvem recursos, organização, mobilização e acção, bastaria, por exemplo, pensar de que forma é possível a uma entidade deslocar-se e montar rapidamente serviços de assistência que respondam às necessidades duma tragédia no Sri Lanka ou no Haiti. Enfim, sem uma atitude empreendedora não é possível a muitas organizações cumprirem a sua missão, qualquer que ela seja.

Há um outro bom exemplo de empreendedorismo social, talvez o mais clássico deles todos; o da acção quotidiana da igreja, não só na ajuda espiritual mas também no apoio material. Ora, não pode deixar de se registar que o espaço, discurso e práticas religiosas são raramente privilegiados nos estudos sobre empreendedorismo. Sabe-se, contudo, que os empreendedores religiosos e suas redes empreendedoras sempre tiveram um importante papel no bem-estar individual e colectivo.

Vasco Eiriz de Sousa é editor do blogue Empreender. Parque das Caldas é uma coluna sobre temas locais.
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