O MERCADO, ESSE MALDITO. É inacreditável mas é verdade. A Associação Nacional de Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias, mais conhecida por ANTRAM, anda preocupada. Outra coisa não seria de esperar quando em 12 meses o gasóleo subiu mais de 30 por cento, dando mostras de querer continuar a escalada. Mas daí a pedir ao Governo a instituição da figura do "gasóleo profissional" vai uma grande distância. A piada é tal que o secretário-geral da dita afirmou ao JN que "o Estado deve ter a preocupação de disciplinar o mercado. (...) Precisa de olhar para os preços e corrigir o mercado". Até aqui, a gente já está habituada a estes choradinhos. Mas, imagine-se, parece que a Secretaria de Estado dos Transportes, a tal que quer expropriar a Bombardier, está a estudar a proposta. E, já agora, porque não um plano quinquenal para disciplinar este maldito mercado!
INVESTIGADORES EM REDE. O "workshop" sobre redes organizacionais realizado pela Faculdade de Economia do Porto durante o dia de ontem valeu a pena. Depois da abertura, efectuaram-se cinco comunicações. Na primeira, João Mota (Universidade Técnica de Lisboa) abordou o facto das empresas possuirem fronteiras permeáveis procurando incorporar os conceitos de competências, divisão do trabalho, especialização e coordenação no estudo das redes. Ricardo Madureira (Universidade de Vaasa, Finlândia) centrou a sua comunicação no papel dos contactos pessoais dos directores executivos nas relações interorganizacionais. De seguida, eu próprio abordei a estrutura do sector do calçado em Portugal como sendo constituído por duas redes geograficamente delimitadas, uma em torno de Felgueiras e outra em São João da Madeira. Explorando a dinâmica de relacionamento intra-rede e inter-redes, mais do que dar respostas procurei suscitar questões de investigação futura, nomeadamente: como se articulam comportamentos competitivos e cooperativos no seio da mesma relação?; o que distingue a relação entre organizações da relação entre redes? que barreiras encontram os promotores da cooperação em rede? qual o papel da localização/espaço na formação e desenvolvimento de redes? quais os padrões evolutivos e de reconfiguração das redes? Teresa Rolo (INTELI) debruçou-se sobre o sector automóvel em Portugal mostrando a dificuldade dos produtores portugueses de peças e componentes em ultrapassar a "terceira linha" de abastecimento dos grandes contrutores automóveis. O primeiro bloco de comunicações terminou com Cristina Baptista (Instituto Superior de Gestão) que apresentou o caso da fusão de duas empresas e de como esta fusão provocou um ajustamento da relação produtor-distribuidores, ao ponto de algumas destas relações terem evoluído favoravelmente enquanto outras (as mais antigas) se tornaram conflituosas. A parte da manhã terminou com uma comunicação de Luís Araújo (Universidade de Lancaster, Reino Unido), um dos principais responsáveis por muitos de nós andarmos a investigar estes temas. Numa comunicação que alternou momentos de humor com reflexões deveras ricas sobre o actual "estado da arte" no estudo das redes organizacionais, foram apresentadas oportunidades e desafios para estudar o tema, a saber: as competências e fronteiras da empresa; oferta, produção e inovação distribuída; e a dimensão espacial das redes industriais. Apesar das primeiras cinco comunicações terem sido de natureza predominantemente exploratória, não deixa de ser estimulante para a organização do evento verificar como alguns destes desafios identificados por Luis Araújo estavam presentes, de forma mais explicita ou implicita, em várias das anteriores comunicações. Depois duma discussão colectiva envolvendo os aproximadamente 40 participantes e do almoço na cantina da Faculdade de Engenharia, mesmo ali ao lado, a parte da tarde foi dividida em duas sessões de trabalho, uma com mestrandos e outra com doutorandos. Saiu-me a de doutorandos onde assisti a comunicações sobre temas de investigação diversos, uns próximos do paradigma das redes e outros nem por isso. Os nove investigadores que apresentaram os seus trabalhos em curso mostraram o quanto diversos são os temas em estudo: redes de inovação na biotecnologia; formação e dissolução de redes colaborativas; internacionalização no contexto de redes empreendedoras; relações com empresas de consultoria; inovação tecnológica no sector hospitalar; marketing de relacionamento em mercados de consumo; parcerias público-privadas; relevância das relações; e sobrevivência empresarial na indústria têxtil e do vestuário. Concluindo, um dia trabalhoso mas bem passado que merece ser repetido.
Prémio
ESTANDARDIZAÇÃO E ADAPTAÇÃO
Por Vasco Eiriz
Num mundo cada vez mais global, uma empresa é frequentemente confrontada com a necessidade de melhor abordar os seus mercados além fronteiras. Por um lado a adaptação da oferta e, por outro, a sua estandardização são abordagens alternativas para responder àquela necessidade.
Os defensores da estandardização, ou seja, disponibilizar a mesma oferta em todos os mercados, insistem em que dela resultam significativas economias de escala na produção, distribuição e gestão. Esta abordagem permite ainda estabelecer uma imagem de marca global e introduzir facilmente novos produtos num grande número de mercados em simultâneo.
Os defensores da adaptação advogam que deverá ser esta a alternativa a implementar, dadas as diferenças entre países a nível cultural, económico, legal e de gostos e preferências dos consumidores.
No compromisso parece estar o ganho. Senão veja-se o caso da CNN. A CNN é uma estação que emite para todo o mundo um serviço televisivo facilmente reconhecível em qualquer parte. A CNN internacional define-se a si própria como um canal internacional com sede em Atlanta, Estados Unidos, e não como um canal americano que emite internacionalmente. A sua oferta ao consumidor consiste basicamente num serviço estandardizado para uma audiência global de milhões de lares. Contudo, essa oferta é sujeita a adaptações em diferentes zonas do globo através de emissões locais. Na procura de crescimento, alguns canais como a CNN+ e CNN Turk são também exemplos de adaptação respectivamente aos mercados de Espanha e Turquia.
Através desta estratégia a CNN consegue obter os benefícios duma estratégia de estandardização e de adaptação que se complementam. Se, por um lado, a estandardização lhe permite afirmar com eficiência a sua marca e tornar-se a maior televisão de notícias do mundo, por outro lado, a adaptação a mercados como o espanhol ou turco permite-lhe aí penetrar com grandes benefícios em termos de audiência, publicidade e produção de conteúdos para alimentar outras emissões.
Há um outro exemplo interessante no negócio dos média de estandardização adaptada. Quando o grupo do jornal britânico The Guardian planeava lançar um matutino gratuito em Manchester, Inglaterra, a reacção da concorrência obrigou-o a antecipar o lançamento em dois meses. Numa marcação cerrada, no mesmo dia do lançamento do Metro News foi também lançado o Metro Northwest (propriedade de outro grupo, detentor do diário The Express).
Enquanto este último jornal, também distribuído gratuitamente, tem por base a adaptação do Metro de Londres ao público de Manchester (via listagem de acontecimentos e informações úteis de âmbito local), o Metro News é produzido pela mesma equipa do Manchester Evening News, vespertino baseado na cidade e pertencente ao grupo do diário The Guardian.
Se o Metro News parece basear a sua vantagem no conteúdo noticioso local, o Metro Northwest baseia-se num conteúdo de âmbito mais nacional e internacional pois é produzido em Londres. Naturalmente, o desempenho de cada título depende da forma como são criadas sinergias com outros títulos e projectos editoriais do seu grupo. Por exemplo, enquanto o Metro Northwest poderá adquirir economias de escala resultantes da associação ao título de Londres ou a outros títulos regionais, o Metro News poderá seguir uma estratégia baseada num produto mais diferenciado.
Concluindo, estandardização e adaptação puras não são provavelmente estratégias alternativas. Diferentes mercados premiarão diferentes estratégias. Nuns casos, a estandardização provocará benefícios acrescidos. Noutros casos, os mercados rejeitam produtos estandardizados e requerem adaptações constantes. Na capacidade de gerir esta diversidade e adaptar globalmente os produtos está o ganho.
Referência original: Eiriz, Vasco (2005), Estandardização e adaptação, Prémio, N.º 75 (22 de Abril), p. 48.
ESTANDARDIZAÇÃO E ADAPTAÇÃO
Por Vasco Eiriz
Num mundo cada vez mais global, uma empresa é frequentemente confrontada com a necessidade de melhor abordar os seus mercados além fronteiras. Por um lado a adaptação da oferta e, por outro, a sua estandardização são abordagens alternativas para responder àquela necessidade.
Os defensores da estandardização, ou seja, disponibilizar a mesma oferta em todos os mercados, insistem em que dela resultam significativas economias de escala na produção, distribuição e gestão. Esta abordagem permite ainda estabelecer uma imagem de marca global e introduzir facilmente novos produtos num grande número de mercados em simultâneo.
Os defensores da adaptação advogam que deverá ser esta a alternativa a implementar, dadas as diferenças entre países a nível cultural, económico, legal e de gostos e preferências dos consumidores.
No compromisso parece estar o ganho. Senão veja-se o caso da CNN. A CNN é uma estação que emite para todo o mundo um serviço televisivo facilmente reconhecível em qualquer parte. A CNN internacional define-se a si própria como um canal internacional com sede em Atlanta, Estados Unidos, e não como um canal americano que emite internacionalmente. A sua oferta ao consumidor consiste basicamente num serviço estandardizado para uma audiência global de milhões de lares. Contudo, essa oferta é sujeita a adaptações em diferentes zonas do globo através de emissões locais. Na procura de crescimento, alguns canais como a CNN+ e CNN Turk são também exemplos de adaptação respectivamente aos mercados de Espanha e Turquia.
Através desta estratégia a CNN consegue obter os benefícios duma estratégia de estandardização e de adaptação que se complementam. Se, por um lado, a estandardização lhe permite afirmar com eficiência a sua marca e tornar-se a maior televisão de notícias do mundo, por outro lado, a adaptação a mercados como o espanhol ou turco permite-lhe aí penetrar com grandes benefícios em termos de audiência, publicidade e produção de conteúdos para alimentar outras emissões.
Há um outro exemplo interessante no negócio dos média de estandardização adaptada. Quando o grupo do jornal britânico The Guardian planeava lançar um matutino gratuito em Manchester, Inglaterra, a reacção da concorrência obrigou-o a antecipar o lançamento em dois meses. Numa marcação cerrada, no mesmo dia do lançamento do Metro News foi também lançado o Metro Northwest (propriedade de outro grupo, detentor do diário The Express).
Enquanto este último jornal, também distribuído gratuitamente, tem por base a adaptação do Metro de Londres ao público de Manchester (via listagem de acontecimentos e informações úteis de âmbito local), o Metro News é produzido pela mesma equipa do Manchester Evening News, vespertino baseado na cidade e pertencente ao grupo do diário The Guardian.
Se o Metro News parece basear a sua vantagem no conteúdo noticioso local, o Metro Northwest baseia-se num conteúdo de âmbito mais nacional e internacional pois é produzido em Londres. Naturalmente, o desempenho de cada título depende da forma como são criadas sinergias com outros títulos e projectos editoriais do seu grupo. Por exemplo, enquanto o Metro Northwest poderá adquirir economias de escala resultantes da associação ao título de Londres ou a outros títulos regionais, o Metro News poderá seguir uma estratégia baseada num produto mais diferenciado.
Concluindo, estandardização e adaptação puras não são provavelmente estratégias alternativas. Diferentes mercados premiarão diferentes estratégias. Nuns casos, a estandardização provocará benefícios acrescidos. Noutros casos, os mercados rejeitam produtos estandardizados e requerem adaptações constantes. Na capacidade de gerir esta diversidade e adaptar globalmente os produtos está o ganho.
Referência original: Eiriz, Vasco (2005), Estandardização e adaptação, Prémio, N.º 75 (22 de Abril), p. 48.
REDES ORGANIZACIONAIS. O "worshop" Redes Organizacionais decorrerá na Faculdade de Economia do Porto na próxima segunda-feira durante todo o dia. Com organização de Carlos Brito, o evento parte da seguinte constatação:
"As empresas não são entidades isoladas independentes umas das outras. Para realizarem de uma forma normal e contínua a sua actividade, elas têm que estabelecer ligações não só com fornecedores e clientes, mas também com concorrentes, clientes de clientes, consultores, organismos governamentais, etc. Essa teia de ligações não surge de um momento para o outro nem é susceptível de ser adquirida como qualquer máquina ou campanha publicitária. Pelo contrário, criar, desenvolver e manter uma rede de relacionamentos é um processo que exige tempo e que envolve, com frequência, compromissos para o futuro. Numa palavra, a network de relações que uma empresa possui deve ser vista como o resultado de um verdadeiro processo de investimento. Deste modo, a situação estratégica de cada empresa não depende apenas da quantidade e qualidade dos recursos que possui mas sim, principalmente, da posição que assume dentro da rede de relacionamentos na qual se insere uma vez que é ela – e a partir dela – que pode aceder, directa e indirectamente, às competências essenciais para o desenvolvimento do negócio. Desta forma, a estratégia empresarial passa fundamentalmente por todo o conjunto de acções que visem reforçar a sua posição dentro da rede. E para isso ela terá que estabelecer relações de complementaridade e cooperação com certas organizações, de competição com outras e até, em certos casos, de conflito. Ao longo das duas últimas décadas o Grupo IMP (Industrial Marketing and Purchasing) tem vindo a desenvolver intensa e valiosa pesquisa neste domínio. O workshop sobre Redes Organizacionais pretende ser, acima de tudo, um fórum que congregue quem faz investigação directa ou indirectamente baseada no quadro conceptual do IMP."
O workshop tem dois objectivos: i. potenciar as competências em termos de investigação, quer dos participantes individualmente considerados quer das instituições a que eles pertencem; ii. estreitar os laços existentes entre os investigadores que em Portugal trabalham no domínio das redes organizacionais, em especial no âmbito do Grupo IMP. Lá estaremos.
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