2007-06-29

EmpreenLer

O correcto politicamente incorrecto
Por Pedro Chagas Freitas

Há um fenómeno que assola, cada vez com maior intensidade – qual tempestade revestida a sol –, a sociedade e todos os seus contornos. Até há bem pouco tempo – sensivelmente até ao momento em que passou a ser notícia alguém ficar fechado dentro de uma casa durante quatro meses – poderíamos distinguir dois tipos de integrantes da estrutura social do nosso país: os politicamente correctos; e os politicamente incorrectos. Debrucemo-nos, antes de mais, nos dois espécimes em análise.

O politicamente correcto é alguém que se rege, com extremo cuidado e quase obsessivo pormenor, por aquilo que lhe é incutido como correcto. Qualquer movimento é pensado com exaustão, preparado com método e executado com doentia perfeição. Para o politicamente correcto, vale mais um bolso vazio com aparência de cheio do que o contrário. Poder-se-á, talvez, falar em futilidade de hábitos. É uma forma de o colocar. A outra é simplesmente vaidade. Porque, para um politicamente correcto puro, pouco importa o que está certo ou errado; o que interessa é o que ele acredita que os outros acreditam estar certo ou errado.

O politicamente incorrecto, por seu turno, é a exacta antítese do politicamente correcto. Não respeita o que lhe é imposto, rebela-se contra o instituído e sente-se amarrado sempre que é obrigado a cingir-se a regras e a protocolos de circunstância. Normalmente, este tipo de indivíduos é mal visto pela sociedade, que tende a colocá-lo num recanto esconso e aonde poucos o podem ver. Um bom local para conhecer alguém assim é – por exemplo – um sanatório. Fica a sugestão.

Mas – e aqui reside o busílis deste texto – assistimos à entrada em cena de um novo tipo de (passe a expressão) pessoa: o correcto politicamente incorrecto. Esta faina de gente caracteriza-se por ser dotada de uma imensa capacidade de imitação daquilo que é perpetrado pelos politicamente incorrectos puros; mas com o senão de tudo fazerem para serem aceites dentro do grupo a que pertencem. Na prática, o correcto politicamente incorrecto vai contra o status quo – mas dentro do status quo. Confuso? Explicitemos com maior acuidade para tudo ficar límpido. O correcto politicamente incorrecto faz questão de ser diferente do correcto – mas fá-lo de uma forma correcta. No fundo, é dono de uma rebeldia aceite, uma rebeldia domada. Uma rebeldia por rebelar. Se o politicamente incorrecto puro é capaz de arrotar em plena cerimónia fúnebre, o correcto politicamente incorrecto limita-se a insinuar que alguém o fez. Dessa forma, estará a ser diferente do correcto; mas diferente do incorrecto. Alturas há, porém, em que o correcto politicamente incorrecto vai ainda mais longe que o seu congénere verdadeiro. Por exemplo, quando alguém lhe pergunta se é rebelde e que tipo de coisas já fez, o puro politicamente incorrecto não corresponde às expectativas: limita-se a esboçar um sorriso e a negar ser diferente – no fundo, para ele, aquilo que faz é normal, tão natural como respirar. O correcto politicamente incorrecto, ao invés, faz alarde de todo o seu carácter diferenciador e discorre com mestria sobre actos que – na maioria dos casos – não tiveram a sua assinatura.

Para se distinguir um correcto politicamente incorrecto de um politicamente incorrecto puro-sangue, bastará fazer o teste da flatulência. Se, numa festa do jet-set, experimentar libertar um ar malcheiroso, verificará duas coisas: 1) alguém perguntará, com o ar mais descontraído do mundo, quem foi que libertou uma flatulência; 2) alguém responderá, com o ar mais descontraído do mundo, “fui eu”. Fica simples de perceber quem é quem.

Pedro Chagas Freitas, autor da coluna EmpreenLer, escreve. Há alturas, porém, em que consegue arranjar tempo para viver. Felizmente para o bem-estar de quem o rodeia, esses momentos são cada vez mais raros. Mais informações em www.pedrochagasfreitas.pt.vu

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