2007-09-07

EmpreenLer

Crónica de uma pergunta anunciada
Por Dora Gonçalves

Foi no programa da Paula Moura Pinheiro: Câmara Clara, assim se chama. E foi lá: foi. Foi lá que, numa sexta-feira destas – já no passado ano –, ouvi a questão que mudou os meus pensamentos; eco atrás de eco lá vai a "pergunta" subsistindo, rodeando todas as expectativas de vida, perguntando-se a ela própria.

A contextualização e explicação dada não me convenceram. Talvez porque não tenha encontrado o trilho para a cura da minha própria solução, mas – verdade seja dita – a resposta não me convenceu. No debate desse dia 24 de Novembro (a tal sexta, a noite do referido programa), dois grandes escritores: José Eduardo Agualusa e Vasco Graça Moura. A "pergunta" era o mote. Cada um, com um estilo de vida oposto, seria capaz de escamotear as dúvidas que me assolavam?

Oiço o genérico: fim. Parei e direccionei toda a absorção daquelas horas para a minha realidade. Pensei. Pensei que, efectivamente, cada um deles tinha o reconhecimento nas palavras. Mas nem assim consegui perceber. Fui pesquisar na net. O propósito? Com o intuito de ter uma resposta para a "pergunta", pretendia saber qual o número de publicações que um e outro tinham. Sou, indubitavelmente, uma mulher de letras, mas os números exercem um fascínio sobre mim.

Dois escritores. Vasco Graça Moura, nascido em 1942, iniciou a sua obra em 1963 com o título Modo Mudando. A partir daí, entre Ensaios, Poesia, Romances e Traduções publicou mais 31 livros. Fazem parte da sua vida sete prémios nacionais e internacionais. José Eduardo Agualusa, nascido em 1960, iniciou as suas publicações em 1989, com a obra A Conjura. Volvidos estes anos já trouxe a público 16 obras literárias, que variam entre Romances, Novelas, Contos, Crónicas e Poesias.

A resposta à pergunta. Pesquisa feita, resolvi presentear-me com estatísticas. Se dividirmos o número de anos do percurso literário de cada um pelo número de obras publicadas encontramos os seguintes resultados: Vasco Graça Moura, que escreve há 44 anos, demora, em média, um ano e quatro meses a publicar nova obra; José Eduardo Agualusa, que escreve há 18 anos, demora cerca de um ano a trazer um novo livro a público.

Eis a resposta à "pergunta": clara, factual e ali – à minha frente. A esta altura já deve o leitor estar farto de conjecturas e números, dado que em tantas palavras nunca a "pergunta" foi formulada.

Será? Depois de toda esta explanação, sinto-me agora capaz de revelar a "pergunta". E note-se: a resposta soube-me bem. Não pelos números a que cheguei, mas porque era este o resultado que, no fundo, pretendia. José Eduardo Agualusa, o vencedor no rácio em cima mencionado. E, quando me refiro ao vencedor, não é ao homem em si, mas o que representa face ao debate da noite no programa: "A vida de escritor deve ser em regime de dedicação total – como acontece com José Eduardo Agualusa – ou conjugando com uma outra actividade profissional – como no caso de Vasco Graça Moura?" Aqui está ela, "a pergunta".

Toda esta dissertação vale o que vale: nada. Não serão necessárias estatísticas para revelar que ser escritor é ser único num misto de talento, vontade e trabalho árduo. Na escrita, "números" é somente mais uma palavra escrita no plural. Valha-me apenas isso.

Dora Gonçalves, co-autora da coluna EmpreenLer, faz da vida uma enorme folha em branco. Com as palavras transforma todas as folhas em branco em enormes vidas. Escreve para viver e trabalha para subsistir. Foi jornalista e faz, pontualmente, trabalhos na área da assessoria de comunicação. É consultora de profissão e autora por vocação dos blogues http://ahoraosexactossegundos.blogspot.com e http://cronicasultimahora.blogspot.com. Tem, sobre si, a mesma visão do que todos os outros. Mas por dentro.

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