2007-11-21

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Olhares diferentes
Por Natália Barbosa

O acesso a informação objectiva que nos permita perceber a evolução económica e social de um país é determinante para captar a atenção de todos e, de alguma forma, envolver todos na procura de soluções. A produção e divulgação de índices que sintetizam a avaliação quantitativa de uma dada realidade é, desta forma, necessária e útil. Exemplos desse tipo de informação são os rankings. Podemos encontrar e/ou produzir rankings para quase tudo. Basta termos informação quantitativa e definir critérios de ordenação das pessoas, organizações, instituições ou países em avaliação. O desafio está na diversidade de olhares que sobre eles podemos posteriormente lançar.

Vem isto a propósito da divulgação do relatório global de competitividade do Fórum Económico Mundial, o qual divulga um indicador global de competitividade para vários países, permitindo o seu ordenamento. Portugal ocupa a 40.ª posição no conjunto dos 131 países analisados. É bom? É mau? Depende para onde queremos olhar e a resposta que queremos dar. Na verdade, temos 91 países posicionados abaixo de Portugal, entre eles, Itália, Grécia e Polónia. Mas também temos 39 países acima da posição ocupada por Portugal, 16 dos quais pertencem à União Europeia. Assim, se olharmos para trás, a fila é grande mas a quantidade e a identidade dos países que se encontram à nossa frente deve suscitar-nos preocupação.

A preocupação acresce quando olhamos para o interior do índice. Isto é, quando analisamos os indicadores que compõem o índice e a classificação relativa que Portugal alcança em cada um deles. Quando isso acontece, o nosso olhar fica mais nebuloso e pesaroso. Na verdade, verificamos que, para além do número de telemóveis e o efeito imediato da medida “empresa na hora”, nenhum outro dado confere distinção positiva à economia portuguesa. Mas, pelo contrário, é fácil perceber que o ineficiente funcionamento do mercado de trabalho é o ponto que mais negativamente contribui para a posição de Portugal. São, por exemplo, as práticas e custos associados ao recrutamento e despedimento, a (ausência de) flexibilidade na determinação dos salários, as relações (ou ausência delas) de cooperação entre empregados e empregadores que tornam Portugal relativamente menos competitivo que outros países, nomeadamente os seus parceiros europeus. Só mesmo a elevada participação das mulheres no mercado de trabalho permite atenuar estes efeitos negativos e dar um pouco de cor à vida e, ao que parece, à competitividade de Portugal.

Natália Barbosa é Professora Associada no Departamento de Economia da Universidade do Minho. É Ph.D. in Economics pela The University of Manchester, Reino Unido. As suas áreas de interesse são dinâmica empresarial e investimento directo estrangeiro. Para além de artigos de divulgação que versam estes tópicos, tem trabalhos publicados em revistas científicas internacionais.

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