2015-10-13

Uma família alemã

A severidade germânica é uma característica que está bem presente em A Família Krupp, série de 2009 exibida ontem na RTP 2. Nesse primeiro episódio assiste-se a uma cena que parece ela própria um pronúncio daquilo que este drama familiar nos reserva. E simultaneamente transmite-nos um ensinamento bem simples, mas ainda assim relevante. Nessa cena, Friedrick Alfred Krupp (1854–1902) ensina à sua filha Bertha Krupp (1886–1957) qual a qualidade que se espera de um bom aço. Espera-se que ele seja duro e resistente mas não ao ponto de se partir, motivo pelo qual deve aliar a flexibilidade à dureza. Sem dúvida, um bom ensinamento. Para o aço e para a vida.

Estas palavras parecem de fato um prenúncio da história da família e da empresa por ela criada em Essen, Alemanha, em 1811. A empresa nasce como produtora de aço e ganha dimensão e notoriedade nos séculos XIX e XX, ao ponto de se tornar um dos principais fornecedores de equipamento e armamento para a máquina de guerra alemã na primeira metade do século XX. Com o fim da II Guerra Mundial, a Krupp sofre as consequências da derrota e vê a sua dimensão reduzir-se abruptamente.


Fábricas da Krupp bombardeadas em Essen, 1945.

A julgar pelo episódio visto ontem (será repetido hoje pelas 22 horas devido aos problemas de emissão havidos), a série, com uma duração total de 270 minutos (se a RTP não nos brindar com a sua habitual ineficácia de programação, deverá render três episódios), centra-se em Bertha Krupp e começa precisamente no ano da sua morte, em 1957, com memórias recorrentes aos anos dourados das décadas anteriores.

A série retrata o drama duma família com problemas de sucessão, disputas e outras idiossincrasias que incluem a homossexualidade do pai de Bertha, a estranheza do neto numa Alemanha a procurar sarar as feridas da II Grande Guerra ou a ligação do império Krupp ao regime Nazi. Percebe-se que nem o contexto de um país derrotado na guerra, nem tão pouco as contingências familiares favorecem a descendência e a prosperidade.


Bertha Krupp com os seus dois filhos, Alfred e Arnold, 1912.

Ainda assim, não há revolução nem tão pouco guerra mundial que mude facilmente a paisagem empresarial de um país ou pelo menos de alguns dos seus principais capitalistas e empresários. Daí que, sem surpresa, a Krupp tenha renascido na segunda metade do século XX como uma das maiores empresas alemãs com negócios na produção de aço, material de transporte e equipamento pesado. Em 1999 funde-se com a Thyssen criando a ThyssenKrupp, um conglomerado industrial que emprega hoje mais de 150000 pessoas.

Desconheço o rumo que a narrativa vai adoptar a partir do segundo episódio mas é de crer que o foco seja efetivamente na primeira metade do Século XX, centrando-se na geração da matriarca Bertha Krupp (1886–1957), na geração que a antecedeu e provavelmente só de forma residual naquela que lhe sucedeu (o filho morre em 1967 e o neto mostra desinteresse em prosseguir o negócio familiar, levando a que a empresa fique a partir de 1968 sob a alçada duma fundação). Naturalmente, é de esperar que a conturbada história da Alemanha esteja também ela bem presente e enriqueça esta mini-série, embora o foco seja a família Krupp e todas as suas incidências.

No primeiro episódio, o registo foi de uma grande sobriedade com um ritmo que direi tipicamente germânico. Como estamos perante uma família alemã, em todos os momentos paira a sombra de Os Buddenbrook, esse magnífico romance da autoria de Thomas Mann que retrata precisamente a decadência duma família alemã.

Sei que será excessivo e porventura despropositado pretender comparar a história escrita de Os Buddenbrook com este registo televisivo em torno dos Krupp. Ainda assim, a comparação é irresistível.

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